História #42 – FDP #1

O primeiro FDP que passou pela minha vida querendo me fuder foi o Fernando. O nome dele não é Fernando. Mas eu vou chama-lo de Fernando para ser gente boa com o FDP. 

O Fernando foi o meu primeiro chefe na Brasoft. A Brasoft foi a primeira empresa decente que eu trabalhei na vida. Naquela época a Brasoft tinha uns 10 funcionários. O Fernando era o gerente de marketing da BraSoft e eu fui o seu primeiro estagiotário.

Para contar a história do Fernando, eu vou contar a história sobre como eu cheguei na Brasoft. 

Eu cheguei na Brasoft através do CIEE – Centro de Integração Escola Empresa. 

O CIEE mudou a minha vida e já deve ter mudado a vida de muita gente por ai. 

Se você é um moleque perdido na vida, vá até o CIEE. O CIEE deve ter mil empregos e trabalhos esperando por você. Vá lá caraio!!!

Eu encontrei duas oportunidades de estágios no CIEE. A Brasoft e o Banco Real. 

Eu marquei a entrevista na Brasoft e no Banco Real no mesmo dia. Brasoft de manhã e Banco Real na parte da tarde.

A Brasoft ficava em um escritório modesto sem fru-fru no 7o andar na Avenida Paulista 171. A entrevista foi com o Fernando. Desde o primeiro momento ele não foi com a minha cara e deixou isso bem claro.

“Moleque, você sabe o que é software?”. 

“Mais ou menos. Eu sei que software é um programa para computador”, eu respondi. 

“Não é tão simples assim moleque. O software é uma concessão de direito de licença de uso dado pelo fabricante para o usuário usar por um período determinado. Tem contrato, tem manual, tem disquetes, tem instalação, tem suporte técnico, tem manutenção etc etc etc. E pelo jeito você não entende nada do assunto. Se eu fosse você eu iria embora daqui.”

No final da entrevista ele pediu para eu fazer uma redação e me mandou embora dizendo que daria um retorno. 

Três horas depois eu fui para a entrevista no Banco Real. 

O Banco Real ficava no meio da Avenida Paulista. No prédio onde hoje fica o WeWork. O prédio é imenso. Naquela época era um dos prédios mais bonitos de São Paulo. A entrevista era com o diretor da agência interna de marketing direto do Banco Real. 

A agência ficava no 10o andar. Quando a porta do elevador se abriu eu fui recebido por uma mulher maravilhosa. Ela era uma das funcionárias da agência. Só tinha mulher linda naquela lugar! Ela me levou até a sala do diretor da agência. Puta sala linda. O cara era show de bola. Super legal. A entrevista foi uma conversa entre amigos. Eu nem senti que estava sendo entrevistado. No final da entrevista ele me deu um exemplar do livro que ele ia lançar naquele mesmo dia na Livraria Siciliano no Shopping Iguatemi. Além de ser um cara incrível, ele ainda era autor de livros sobre marketing direto! 

O ambiente do Banco Real era sensacional. Alto astral, mulherada linda, chefe gente boa, etc etc etc. O ambiente da Brasoft era fúnebre. Eu não vi nenhuma mulher. O Fernando era baixo astral. O escritório era escuro. 

No dia seguinte eu recebi a ligação do Banco Real. 

“Ricardo, o diretor do banco adorou você. Você foi escolhido. Você precisa vir hoje a tarde no banco com os seus documentos para darmos inicio a sua admissão.”

Uma hora depois, eu recebi a ligação do Fernando da Brasoft. 

“Ricardo, olha… eu não gostei de você. Por mim eu não estaria fazendo essa ligação para você. MAS, os diretores da Brasoft adoraram a redação que você fez e querem te contratar. Por mim, eu não contrataria você. Mas eu vou te contratar porque o Ricardo Aloi e a Nancy querem que eu escolha você.”

O que VOCÊ faria no meu lugar? 

Você escolheria o caminho do banco ou o caminho do software?

Você escolheria o caminho da carreira em uma grande empresa já estabelecida ou em uma pequena empresa em um mercado emergente?

Você escolheria o chefe gente boa ou o chefe baixo astral?

Ah! Outra coisa.. O Banco Real pagava 10x mais que a Brasoft. 

Adivinha qual eu escolhi?

Eu escolhi a Brasoft. 

Por que eu escolhi a Brasoft?

Porque eu imaginei que seria o ambiente ideal para eu empreender as minhas ideias malucas. 

Porque eu imaginei que seria o ambiente ideal para eu aprender como uma empresa funciona do começo ao fim. 

Porque eu imaginei que seria o ambiente ideal onde eu teria contato direto com o computador que eu já sabia que um dia iria mudar o mundo. 

Se para empreender de verdade, aprender como um negócio funciona, e ter contato com software eu tenho que pagar o preço de conviver com um FDP, então eu pago. 

E foi o que eu fiz. 

Durante 6 meses o Fernando me fudeu o tempo todo. Ele simplesmente não me deu nada para fazer a não ser separar fotolito, tirar pó da mesa dele, guardar folhetos em pastas suspensas e agitar reuniões as 20:00h da noite sobre idéias-nada-a-ver-com-nadasó para fuder a minha faculdade. Ele se achava o gênio do marketing. Por isso ele chegava as 11:00h da manhã no escritório e saia as 22:00h da noite sem fazer porra nenhuma. 

Como ele não me dava nada para fazer, eu procurava ajudar as outras pessoas do escritório. Eu ajudava em VENDAS, em PRODUTO, na PRODUÇÃO, no DESENVOLVIMENTO, no SUPORTE, no FINANCEIRO, em tudo que eu podia ajudar. 

No final dos 6 meses do estágio, o Fernando me chamou na sala de reuniões com uma carta de término de estágio na mão e vomitou um sermão de 3 horas de duração sobre o quão merda eu era. 

Ele detonou a minha postura, a minha falta de imaginação, a minha falta de atitude, a minha falta de respeito com ele, a minha proatividade com relação as outras áreas, o meu excesso de entusiasmo nas horas erradas, a maneira desleal que eu tratava ele, e mil outras coisas relacionadas a fatores emocionais que só me fez chorar prá caraio. 

Eu chorei muito. Depois do sermão eu fiquei na sala sozinho por um bom tempo até melhorar a aparência antes de ir embora. Eu estava com vergonha dos meus olhos inchados. 

No dia seguinte, já em casa, eu recebi um telefonema da Cassia, secretária do Jorge, o diretor comercial da Brasoftware, o braço de revenda de software que estava nascendo dentro da Brasoft. 

“Ricardinho, (esse era o meu apelido nos anos da Brasoft/ware), onde você está?!!! Ninguém aqui se conforma com o que aconteceu. O Fernando mandou você embora??!!! Pode voltar! O Jorge quer que você trabalhe com ele.”

Eu então voltei no mesmo dia para a Brasoft e fui recontratado como funcionário do Jorge Sukarie na Brasoftware. 

Quando o Fernando chegou para trabalhar depois do meio-dia e viu o que tinha acontecido, ele ainda teve a cara de pau de me dizer que ELE tinha agitado a vaga de assistente do Jorge para mim. 

FDP. 

Quatro meses depois o Fernando foi mandado embora. 

Eu fiquei na Brasoftware uns 10 anos. Nesses 10 anos nós revolucionamos a maneira de vender software no Brasil. 

Os FDPs são temporários. 

Os sonhos não. 

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Eu vou escrever 50 histórias sobre a minha vida até o dia do meu aniversário de 50 anos no próximo dia 29 de dezembro. Se você perder alguma, confere nohttp://blogdojordao.com/