História #44 – 6 meses de cama.

Quando eu tinha 16 anos de idade eu fiquei 6 meses de cama por causa de uma hepatite brava que me pegou de jeito.

Eu fiquei 6 meses de cama internado no meu próprio quarto. Um quarto de criança dos anos 80. Ou seja, sem televisão, sem internet, sem frigobar, sem PlayStation, sem aparelho de som.

Eu fiquei de cama os seis primeiros meses do ano do meu terceiro colegial. De janeiro até meados de julho.

Eu voltei para a escola somente em agosto.

O meu terceiro colegial teve apenas seis meses. Eu tive a metade do tempo que os meus amigos tiveram para estudar o que seria importante para o vestibular ou mesmo passar de ano.

Eu estava no auge dos meus 16 anos. Cheio de energia. Tocando guitarra com a minha banda. Participando dos times de futebol de salão, vôlei e xadrez no colégio, ganhando dinheiro com as festas; e da noite para o dia, eu tive que interromper tudo isso para ficar preso na cama por seis meses.

Hepatite é uma doença contagiosa. Durante o tempo que eu fiquei em casa de cama ninguém podia se aproximar de mim.

Na primeira semana uns dez amigos vieram me visitar. No final do primeiro mês nem telefonema eu recebia dos amigos. Eu acho que a mãe dos meus amigos diziam para eles que hepatite passava por telefone.

A minha mãe era o meu único contato com o mundo externo. Ainda assim de longe. Eu via a minha mãe quando ela deixava o prato de comida na soleira da porta. Tipo comida para prisioneiro encarcerado no calabouço de um castelo. Quando eu terminava de comer eu deixava o prato na porta para ela pegar. Eu acho que ela passava todo tipo de material de limpeza para desinfetar a coisa toda. Do jeito que ela é hipocondríaca, eu acho que ela jogava o prato direto no lixo.

A hepatite acaba com o fígado. Sem fígado você não consegue nem ficar de pé. Nem querendo eu conseguia ficar de pé. 5 minutos em pé e tudo começava a girar. Era uma tontura dos infernos.

Durante os seis meses de hepatite eu tinha que realmente ficar deitado. Nem sentado eu podia ficar. Levantar só para tomar banho que tinha que ser bem rápido para não desmaiar. Inclusive, para levantar da cama tinha que ser de lado para não forçar a barriga. Sentar só para comer. E para comer somente o que pessoas que tem hepatite podem comer.

Em seis meses eu emagreci sei lá quantos quilos. Eu agosto eu tive que trocar todo o meu guarda roupa. Ninguém me reconheceu quando eu voltei para a escola.

Mas, se tem uma coisa que eu realmente sou é RESILIENTE. Eu tenho uma capacidade absurda de me levantar muito rápido depois de qualquer porrada, tombo ou desilusão que eu possa ter na vida. Eu realmente tenho uma capacidade ABSURDA de me adaptar rapidamente a qualquer situação. Quem me conhece sabe que eu mantenho a calma não importa o quão dramática seja uma situação. Eu sou daqueles que mantém toda a calma quando o mundo ao meu redor está desmoronando.

No terceiro dia de cama eu já estava adaptado a minha nova realidade. O meu mimimi já tinha passado. Eu decidi que eu ia ler absolutamente todos os livros que existiam em casa. Dito é feito. Em 6 meses eu devo ter lido uns 100 livros. Era um livro a cada dois dias.

Quando eu entrei na hepatite eu já era um leitor voraz. Eu saí da hepatite completamente obcecado por livros. Essa obsessão perdura até hoje. Eu sou um maníaco compulsivo por livros.

6 meses… no primeiro dia da hepatite eu não tinha nenhuma ideia de quanto tempo eu ficaria de cama. Ninguém sabia. Todos os médicos tinham palpites, nenhum tinha certeza de nada. Eu não sei o quanto o tratamento da hepatite evoluiu nos dias de hoje, mas naquela época ninguém sabia de porra nenhuma sobre como curar a doença.

Eu podia ficar alguns meses ou um ano, sei lá. Ninguém sabia. Uma coisa é você saber quando você vai ser libertado de uma prisão. Outra coisa completamente diferente é não ter previsão nenhuma sobre a sua liberdade.

Eu não fui curado por um médico galã do Hospital Albert Einstein ou por algum remédio caro fabricado pela Pfizer. Quem me curou foram as medicinas alternativas que a minha mãe não cansava de pesquisar e experimentar em mim.

TE AMO MÃE!!!

Eu não sei se tudo acontece por alguma razão. Eu só sei que eu sei tirar um bom proveito de todas as situações que acontecessem comigo. Não importa o quão ruins elas sejam.

Em agosto eu era uma nova pessoa. Muito mais rápido, mais inteligente, mais bonito, mais agradecido pela vida que eu tinha. O segundo semestre do terceiro colegial foi o melhor meio-ano que eu tive na escola na minha vida.