História #47 – Gerson

Quando eu tinha 8 anos de idade, um cara chamado Gerson – fugindo da polícia – entrou no prédio onde eu morava na Aclimação, pegou eu e um amigo de infância chamado Ricardo Venturini como reféns, enfiou uma faca gigantesca no nosso pescoço, jogou a gente para dentro do elevador do prédio, e ficou subindo e descendo os andares para escapar dos adultos que estavam atrás dele.

De dentro do elevador eu só escutava o barulho dos passos apressados dos adultos correndo escada acima para alcançar o elevador quando ele parasse em algum andar. Como o elevador subia mais rápido que os adultos, tão logo atingia o último andar do prédio, o Gerson mandava o elevador para outro andar. Era um pega-pega sem fim.

“Solte os meninos e vá embora! Solte os meninos e vá embora”. gritava desesperado o zelador do prédio naquela época, o grande Seu Walter.

Toda vez que alguém gritava, o Gerson apertava o nosso pescoço com mais força e ameaçava enfiar a faca no meu amigo e em mim.

Em pouco tempo já tinha adulto posicionado em quase todos os andares do prédio em frente a porta do elevador.

O elevador então parou subitamente no quinto andar. Foi tempo o suficiente para alguém abrir porta e gritar para o Gerson soltar a gente. O Gerson se assustou, o meu amigo aproveitou a deixa e saiu correndo do elevador. Eu não corri. O Gerson se recuperou, me segurou novamente, enfiou a faca no meu pescoço e disse que ia me matar se o cara não fechasse a porta.

O Gerson então levou o elevador para o décimo andar do prédio e lá estacionou. De lá ele avisou, “Se alguém chegar perto eu mato esse moleque”.

Ninguém mais ousou se aproximar.

Nessa altura do campeonato você deve estar se perguntando, como eu sabia que o nome do cara era Gerson?

Eu não sabia.

Eu fiquei sabendo porque nas horas que ficamos ali presos no décimo andar, eu me apresentei para ele, ele se apresentou para mim, ele me disse onde morava, que tipo de vida ele levava, eu falei para ele sobre as coisas que eu fazia, ele falou sobre as drogas, eu falei sobre STAR WARS, ele falou sobre as gangues que existiam no bairro, eu falei sobre os meus amigos. Ele falou sobre pobreza e a indiferença dos ricos do bairro. Eu falei sobre os babacas da escola. Naquele tempo que ficamos juntos eu aprendi mais sobre EMPATIA do que você possa imaginar. Para mim o Gerson não era um assaltante, ele era um cara igual a eu – com a diferença que ele era pobre negro órfão sem escola e sem oportunidade. Ele se acalmou, ficou nervoso, chorou, deu risada, falou sobre a sua paixão por bicicletas e sobre a sua grande paixão, o futebol.

Uma ou duas horas se passaram – não sei ao certo -, até que o Gerson gritou para todos que ele ia me soltar e ir embora. O Seu Walter, zelador do prédio, se comprometeu a deixar ele ir embora se me soltasse.

Enquanto isso dentro do elevador o Gerson já não me ameaçava mais. Ele já tinha guardado a faca dentro do shorts.

O Gerson levou o elevador até o térreo. Quando o elevador chegou, ele empurrou a porta com o pé e me segurando pelo pescoço passou no meio de um corredor polonês formado por sei lá quantas pessoas.

Quando já estávamos distantes o bastante dos adultos, o Gerson me soltou, falou tchau, pulou o muro do prédio e foi embora.

Depois disso, o Gerson e eu voltamos a nos encontrar várias outras vezes pelas ruas do bairro. Vários amigos que cresceram junto comigo na Aclimação sabem quem era o Gerson. Todos tinham medo dele. Eu não.

Algum tempo depois voltando da escola alguns trombadinhas do bairro sacaram um estilete e pediram para eu passar a minha bicicleta para eles. Foi quando o Gerson apareceu do nada e disse a eles que me deixassem em paz.

Depois de alguns anos, o Gerson sumiu do bairro. Eu nunca mais vi ele. Eu não tenho a mínima ideia de onde ele possa estar hoje ou o que aconteceu com ele.

Enquanto isso, na televisão brasileira, a campanha de marketing mais famosa do Brasil naquele momento era sobre a “Lei do Gerson”. A “Lei do Gerson” dizia que o brasileiro queria levar vantagem em tudo. O tal do jeitinho brasileiro. Essa campanha teve um impacto absurdo no consciente coletivo brasileiro. Aqueles que são da minha geração até hoje mencionam a Lei do Gerson quando precisam explicar o comportamento preguiçoso, egoísta ou mesquinho de alguma pessoa.

Mas eu não.

Para todos os meus amigos, o Lei do Gerson era sobre ser pilantra. Para mim, Gerson era sinônimo de pessoas que precisavam de ajuda e oportunidade na vida.

Enquanto todo mundo crescia influenciado pelo marketing negativo sobre o povo brasileiro, eu crescia pensando apenas em ajudar o máximo possível de pessoas.

O Gerson não mudou a minha vida. O Gerson simplesmente mostrou para mim qual deveria ser a minha vida.