O que vai acontecer no seu mercado em 2007.

Comida

"Irá se aprofundar a dualidade entre "natural" e "artificial", e alimentos "limpos", vigiados e certificados serão favorecidos pela crise do petróleo, que encarecerá os insumos agrícolas. A biodiversidade amazônica terá mais chances comerciais, e muitas espécies silvestres serão domesticadas.

Decairá o tempo total dedicado às refeições domésticas, destruindo-se códigos alimentares e aprofundando-se o "analfabetismo culinário". A hegemonia do novo modelo dietético (com menos açúcar, calorias e gorduras) e a formação do gosto dependerão mais do sistema de ensino do que da família.

A cozinha da casa assimilará a revolução digital e a nanotecnologia. Controles mais precisos de tempo, temperatura e dos gestos culinários favorecerão o individualismo do "chef doméstico". A refeição cerimonial (receber em casa) evoluirá para a sofisticação e a excepcionalidade." CARLOS ALBERTO DÓRIA é sociólogo e autor de "Estrelas no Céu da Boca" (ed. Senac-SP).

Moda

"Nos próximos anos assistiremos a uma fusão gradual entre os avanços da nanotecnologia, biotecnologia, tecnologia da informação e tecnologias cognitivas na concepção da moda do século 21. O resultado poderá ser percebido em materiais com tensões diferenciadas, propriedades ópticas e térmicas, muito além do conceito clássico de roupas. O vestido feito à base de spray é um dos inúmeros exemplos.

Um grupo de pesquisadores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), as empresas de telecomunicação France Telecom e British Telecom, além da Philips Design, têm desenvolvido pesquisas intensas sobre a evolução do conceito de "wearable computers" (computadores vestíveis) para "wearable technologies" (tecnologias vestíveis), que respondem a comandos nas roupas e acessórios.

O que se vê hoje é o ecletismo e o individualismo ditando a moda como espetáculo, a partir de uma pulverização globalizada de estilos, em que não há uma silhueta primordial, mas sim o revival de técnicas num movimento de reação às etiquetas massificadoras. O "multivíduo", conceito do antropólogo Massimo Canevacci, é um indivíduo plural, multiplicador de sua própria existência por meio de modismos temporários. Talvez a personagem por excelência para a "tecnofashion"." TARCISIO D’ALMEIDA é professor de moda na Faculdade Santa Marcelina e na Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Antropologia

"O antropólogo americano Marshall Sahlins diz que, quanto ao futuro, apenas duas coisas são seguras na disciplina: a primeira é que estaremos mortos; a segunda é que o que tivermos escrito será considerado errado. A sorte é quando a segunda não acontece antes da primeira.

Questões que crescem na antropologia social: tudo o que tem a ver com conflitos e novos movimentos sociais, inclusive aqueles sobre direitos dos animais. Parece também que as pessoas vivem em mundos mais diferentes entre si do que se imagina. Donde o interesse em entender como se comunicam.

O que a antropologia pode trazer para entender nossa época: a etnografia, uma boa descrição do que está ocorrendo e do que pensam as pessoas em lugares tanto centrais quanto remotos. Documentar o presente em suas várias dimensões e lembrar que só as boas etnografias resistem ao tempo." MANUELA CARNEIRO DA CUNHA é antropóloga e professora na Universidade de Chicago.

Televisão

"Enquanto as telenovelas globais e similares patinam há décadas sem se renovar narrativa e tematicamente, as séries recuperaram o poder do folhetim e nele injetaram novidades formais e, sobretudo, comportamentais. Com seu formato aberto e sua velocidade de representação, captam as mutações das subjetividades quase no instante.

O suporte libera a passos rápidos os formatos já existentes de expressão -filmes, vídeos, clipes ou simples registros amadores. Sem a parafernália técnica e distante do alto custo, as possibilidades criativas foram tomadas de assalto por jovens que relatam o mundo sob a forma mutante em que vivem, libertando, assim, o olhar.

Com a realidade substituída pela imagem, para existir é preciso estar registrado e transmitindo, seja por TV, internet ou mídias móveis, como os celulares. Na era do virtual, a visão se tornou tele-visão, o MSN e o Orkut substituíram a conversação, e a palavra escrita, que abriu a porta da história, corre o risco de não sobreviver ao caos sem memória da pós-história."CÁSSIO STARLING CARLOS é crítico de cinema da Folha de S.Paulo.

Literatura

"A tradução, sobretudo para o inglês, progredirá. Toda cultura que quiser ser conhecida terá que se apresentar na internet em sites bilíngües, dos quais haverá cada vez mais traduzidos para o inglês por seus países. Línguas dispostas a concorrer com o inglês divulgarão obras estrangeiras, não só as suas.

Graças à Segunda Guerra no Pacífico, milhares de norte-americanos aprenderam japonês e se tornaram divulgadores de sua cultura. Talvez a conflagração entre países islâmicos e Ocidente leve à descoberta das literaturas árabe e persa clássicas e modernas nos EUA e no mundo.

No Brasil, a estatura de Haroldo de Campos crescerá e o legado de sua geração (concretos, Gullar, José Paulo Paes) vai se consolidar. O reconhecimento de Vinícius de Morais poderá convencer os poetas atuais a, fugindo do coloquialismo obrigatório, rever a tradição e as formas fixas. NELSON ASCHER é poeta, crítico e tradutor. É colunista da Folha de S.Paulo

"Para que não se perca o senso de medida, devem ser lidos cada vez mais Homero, Platão, Catulo, "As Mil e Uma Noites", "A Divina Comédia" [Dante], Shakespeare, "Dom Quixote" [Cervantes], "Robinson Crusoe" [Defoe], "Os Sofrimentos do Jovem Werther" [Goethe], "O Vermelho e o Negro" [Stendhal], Thoreau, "Crime e Castigo" [Dostoiévski], "A Morte de Ivan Ilitch" [Tolstói], "Ulisses" [Joyce], "Memórias Póstumas de Brás Cubas" [Machado de Assis], "O Som e a Fúria" [Faulkner], "O Coração das Trevas" [Conrad], "A Montanha Mágica" [Thomas Mann], "O Estrangeiro" [Camus]." CRISTOVÃO TEZZA é crítico e escritor.

Filosofia

"Nas próximas décadas, seremos crescentemente confrontados, também no plano filosófico, com o real significado do que a China protagoniza nos campos econômico, sociopolítico e cultural, sobretudo com a capacidade de enfrentamento desassombrado dos atuais macroproblemas das sociedades humanas.

Na ausência de um horizonte ampliado de responsabilidade coletiva, caminharemos, em cândida má-fé, para a situação-limite em que a natureza afinal cobrará dos filhos de Adão a conta pela insana pilhagem do universal do planeta. Então, como lucidamente profetizou Hans Jonas (filósofo, 1903-93), não se pode nem sequer imaginar como é que uma outra "humanidade" poderia recomeçar numa Terra inteiramente desertificada.

Cada vez mais, a configuração das sociedades contemporâneas se pauta pela juridicização dos espaços políticos. Conflitos entre pretensões legitimáveis, seja em escala nacional ou planetária, exigirão resolução, em termos de julgamento e ação, de acordo com princípios sustentáveis de inclusão e justiça social, firmados ao desamparo das ilusões desejantes que, até o presente, conseguiram dissimular, em roupagem formal, procedimental ou material, o particularismo dos interesses em jogo." OSWALDO GIACOIA JR. professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (SP).

Arquitetura

"Retrato alarmante do crescimento das favelas, do fanatismo religioso e do trabalho informal sob um panorama geral de desindustrialização. Importante revisão da teoria crítica marxista ao abordar a urbanidade explosiva contemporânea, feita pelo autor do clássico "Cidade de Quartzo".

Exaustivos estudos de caso sobre o crescimento das cidades chinesas e a proliferação mundial dos shopping centers. Elaborados por equipes multidisciplinares e transnacionais, abordam, por meio de uma linguagem pop, temas decisivos, porém marginais à discussão arquitetônica oficial.

De Paulo Mendes da Rocha, descreve um sistema de vias elevadas por treliças metálicas que articula diversos edifícios existentes em terreno altamente acidentado. O projeto -cujo início das obras está previsto para fevereiro de 2007- contraria a fragmentação inicial criando uma urbanidade aérea, ao mesmo tempo em que mantém a feição natural do terreno, recuperado como parque público."GUILHERME WISNIK é arquiteto, autor de "Lucio Costa" (Cosacnaify), e colunista da Folha de S.Paulo.

Internet

"Pervasive computing" é um conceito atual que está tomando conta da computação e informática: chips imperceptíveis por todos os cantos, paredes, roupas, carros. Por aqui, cientistas que entendem disso são Carlos H.C. Ribeiro (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e Sergio Bampi (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Não dá mais para ignorar a relevância cultural dos games. O site http://www.gamecultura.com.br é um ponto de encontro para a comunidade dos que desejam conhecer, compartilhar e se divertir com novidades sobre essa mídia absorvente.

Na web, existir é ser visto. Logo, para incrementar a conversação configure um blog no Blogger e "voilà". Dê um charme a sua vida digital. Blogar é uma daquelas coisas que fazem a diferença na revolução digital."HERNANI DIMANTAS é coordenador de conteúdo do programa Acessa São Paulo e autor de "Marketing Hacker" (Garamond).

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