História #39 – O PDF #1

Eu já escrevi sobre o primeiro grande FDP que cruzou o meu caminho. Hoje eu vou falar sobre o primeiro grande PDF que cruzou a minha vida.

PDF = Puta De um cara Foda.

O nome dele é Paulo Roque.

Ele criou a BraSoft.

O BraSoft foi uma empresa pioneira na representação e distribuição de software para microcomputadores no Brasil. O Paulo foi o cara que trouxe o WORDSTAR para o Brasil. O Paulo foi o cara que trouxe o PC TOOLS para o Brasil. O Paulo foi o cara que trouxe o primeiro software para desktop publishing para o Brasil, o Ventura Publisher da Xerox. O Paulo foi o cara que trouxe a primeira rede local de microcomputadores para o Brasil, a Tapestry. O Paulo foi o cara que trouxe os games para PC para o Brasil. O Paulo foi o cara que trouxe os primeiros softwares educativos para o Brasil.

O Paulo Roque é o cara.

Quem lembra do WORDSTAR?

O WORDSTAR foi o avô do Word da Microsoft.

Eu lembro do dia que eu recebi uma comitiva de galãs da Microsoft no escritório da Brasoftware para conversar sobre um novo software que eles iam lançar no mundo, o Microsoft Word. Os galãs da Microsoft foram até a Brasoftware para saber o que eles deveriam fazer para lançar o Word no mercado. Eles queriam saber a nossa opinião sobre preço, distribuição, propaganda e muito mais.

Esse tipo de consulta era muito comum naquela época. O trabalho que a BraSoft e a Brasoftware faziam no mercado de software no Brasil era muito pioneiro. Todo mundo queria saber a nossa opinião sobre tudo que tinha a ver com software. Eu perdi a conta do número de reuniões que eu fiz com todo tipo de gente que queria saber como criar, empacotar e vender um software no Brasil.

Nós vendemos milhões de reais e milhares de cópias do WORDSTAR no Brasil para centenas de milhares de clientes. Se você alguma vez usou o WORDSTAR na sua vida na sua casa ou na sua empresa, ele chegou até você através da BraSoft.

O WORDSTAR era vendido em 25 disquetes de 5 e 1/4 e depois em disquetes de 3 e 1/2. Hahaah. Quem lembra dos velhos disquetes?

Todos os milhares de disquetes do WORDSTAR eram feitos na Brasoft pela galera da produção em PCs XTs e PCs 286 mais lentos que a pior internet que você já viu na vida.

O Paulo Roque começou tudo isso.

Eu fiz centenas de palestras sobre o WORDSTAR. Incontáveis demonstrações e dezenas de visitas a clientes corporativos para mostrar para a turma que usava o mainframe que o WORDSTAR e o microcomputador eram o futuro da tecnologia e dos negócios. Eu tinha 20 anos naquela época.

A Brasoft estava no centro de uma transformação tecnológica que a galera de tecnologia queria evitar a qualquer custo: a migração dos mainframes para as redes locais formadas pelos PCs Servidores e microcomputadores.

O nosso cliente alvo queria continuar no passado. O nosso produto era o futuro e eles não queriam muita história com ele.

A minha resiliência com vendas nasceu aí.

Eu escutei milhares de NÃOs de centenas de gerentes de tecnologia que se achavam os senhores da tecnologia das suas empresas e não queriam mudar para os PCs.

Na época da Brasoft, Brasoftware e Tech Data eu trabalhava 18 horas por dia. Eu trabalhei nesse ritmo acelerado durante mais de 20 anos. Eu só mudei esse ritmo depois que eu casei.

O Paulo Roque é um dos caras que me inspirou a trabalhar muito em um ritmo acelerado.

Ele era ligado no 550.

Eu não lembro do Paulo andando. Ele estava sempre correndo.

O Paulo abria a porta do escritório da Brasoft como o Kramer – personagem da série Seinfeld que abria a porta do apartamento do Jerry do nada. Eu tomava susto toda hora.

Enquanto o Kramer entrava no apartamento do Seinfeld para procurar comida, o Paulo trazia alguma ideia nova que ele queria ver implementada na Brasoft em questão de horas ou dias.

O Paulo Roque era o cara dos livros. A Brasoft tinha uma biblioteca imensa de livros que os funcionários podiam levar para casa para ler. Eu achava aquilo incrível. O Paulo comprava livros novos a todo momento e incentivava todos a lerem. Eu pegava todos que ele recomendava.

O Paulo sempre foi o cara das ideias fora da caixa, das metas impossíveis, e da reinvenção das coisas.

Depois de milhares de horas de trabalho insano, a Brasoft tinha engatado. O WORDSTAR estava bombando. O canal de revendas estava acontecendo. A Brasoftware treinamentos estava ocupada treinando os novos usuários de WORDSTAR. A coisa estava andando.

Mas para o Paulo não era o suficiente.

Ele queria sempre mais.

Eu lembro como se fosse hoje. A Sirlene, secretaria do Paulo, toda estressada chacoalhando os braços e gritando com todo mundo porque o Paulo tinha acabado de aterrisar em Guarulhos e queria se reunir com todos os funcionários da Brasoft antes mesmo de ir para a casa depois de uma viagem de quinze dias pelos EUA.

Lá pelas oito horas da noite o Paulo Roque entra correndo no escritório na mais completa adrenalina e joga uma mala de viagem no chão cheia de folhetos de softwares que ele coletou na CES de Las Vegas.

“Turma, eu fechei a distribuição no Brasil com todas as melhores empresas de games para PC do mundo!!! LucasArts, Sierra etc! Eu vou criar uma empresa chamada Brasoft Games e nós vamos começar a vender games para PCs para pessoas físicas!”

Todo mundo riu do Paulo. 32 pessoas físicas no Brasil tinham computadores nas suas casas. A reserva de mercado comia solta no país. O computador era caríssimo.

Eu achei incrível.

O Paulo tinha assinado um acordo de distribuição no Brasil dos games do George Lucas!!!

George Lucas é o criador de STAR WARS!!!! E o criador da LucasArts!!!!

O George Lucas enxergou o potencial dos games antes de todo mundo. Ele criou uma empresa para fazer games para PC e em poucos anos criou jogos incríveis como INDIANA JONES, MONKEY ISLAND, THE DIG, TIE FIGHTER, FULL THROTTLE entre muitos outros.

Eu ia ajudar a introduzir e vender o mundo dos games para PC no Brasil com 21 anos!!!!! PQP!!!!

Com essa jogada o Paulo deu uma de Steve Jobs muito antes do Steve Jobs dar uma de Steve Jobs.

Enquanto todo mundo achava que o futuro da Brasoft estava no B2B, o Paulo apareceu com a frente B2C.

O Paulo repetiu esse tipo de pivotada anos depois com a introdução na Brasoft dos softwares educativos e depois com a introdução dos grandes contratos de distribuição com a Microsoft e muitos outros.

Risco, agilidade, busca do novo, reinvenção, exigência de qualidade e excelência, trabalho em equipe, preocupação com o desenvolvimento do próprio mercado e não apenas de si mesmo – o Paulo foi um dos caras que criou a ABES (Associação Brasileira das Empresas de Software) – foram alguns valores que eu aprendi com o Paulo Roque.

O Paulo Roque é um cara muito low profile. Depois de muitos anos insistindo com ele, finalmente eu consegui levar o Paulo para o palco do EPICENTRO para ele falar um pouco da sua vida. Em 2019 o Paulo palestrou no EPICENTRO. A palestra foi gravada e está disponível no canal do EPICENTRO no YouTube. Confere lá.

Se hoje o microcomputador está presente na sua vida e na vida da sua empresa é porque caras como o Paulo Roque trabalharam dia e noite por muitos anos para isso acontecer.

O Paulo Roque é o cara!

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Eu vou escrever 50 histórias sobre a minha vida até o dia do meu aniversário de 50 anos no próximo dia 29 de dezembro ou um pouco depois hehehe. Se você perder alguma, confere no http://blogdojordao.com/